Se você gostou dos livros: “Passarinha”, “O menino do pijama listrado” e “O quarto de Jack”, certamente também irá gostar de “O menino que sobreviveu”. O livro de Rhiannon Navin, é sensível e emocionante, nos traz uma história sobre empatia e compaixão, narrado pela simplicidade e compreensão da visão de uma criança, o protagonista Zach, um garotinho de seis anos.


– Compaixão é quando a gente sente empatia e amor pelas criaturas vivas.” O que quer dizer empatia? – perguntei ao papai, porque essa é uma palavra difícil também.

O papai abriu os olhos.

– É quando a gente se importa com os outros e consegue perceber como eles estão se sentindo. A gente tenta entender o que os outros estão sentindo.

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Poderia ter sido mais um dia normal de aula na Escola Fundamental McKinley, mas não foi. Uma tragédia que abalaria a estrutura emocional de todos iria explodir, e os envolvidos nesse episódio jamais voltariam a ser os mesmos. Assim, após o recreio, acontece a inesperada fatalidade e estrondos são ouvidos do lado de fora da sala. Então, a professora e seus alunos escondem-se no armário, e juntos vivenciam momentos de tensão, pavor e esperança de que tudo acabaria bem. Uma ficção que, infelizmente, por muitas vezes já foi vivenciada na realidade. Crianças expostas a um terror que poderia traumatizá-las pelo resto de suas vidas.



Após o fim do trágico acontecimento, a professora e seus alunos sobrevivem a calamidade, que os deixaria com marcas profundas e traumas difíceis de superar. Enfim, Zach reencontra seus pais, porém seu lar já não seria mais o mesmo. E o garotinho sobrevivente poderia também ser chamado de “o garoto invisível”, pois era assim que Zach passou a ser dentro de sua própria casa. Seu pai se entregou completamente ao trabalho e sua mãe obsecada por justiça, ou melhor, vingança. E Zach? Se transformou em um garotinho solitário, porém, com uma imaginação incrível que contagia o leitor com aquela simplicidade que só as crianças têm, mas com observações e sentimentos que passam, muitas vezes, despercebidas pelos adultos.


A gente pode se sentir feliz se não pensar apenas em si mesmo, mas pensar nos outros e se importar com eles. Quando a gente tenta sentir empatia, talvez consiga entender por que as pessoas agem de determinada maneira. A gente não vê apenas o comportamento delas, mas tenta entender de onde esse comportamento está vindo.

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Um ponto relevante do livro, é a forma como cada pessoa lida com o luto e com as situações adversas, como as pequenas coisas valiosas da vida são, pouco a pouco, abandonadas, até não serem mais notadas. Uma vivência sofrida para uma criança, até então,  cheia de carinho e amada, que passar a ser desapercebida, solitária e amedrontada pelas lembranças de um terror anteriormente vivenciado.


Que livro delicado e emocionante! Seu tema principal é o sentimento de se colocar no lugar do outro, pois, às vezes, apenas se enxerga o que está dentro de si mesmo, e esquece que o outro também tem sentimentos, e daí vem os julgamentos e as condenações. Respeitar e procurar compreender o próximo, é o que chamamos de empatia. É exatamente com esse sentimento que Zach, com a inocência e delicadeza de uma criança, irá tentar unir o que a tragédia tentou destruir. 


Título: O menino que sobreviveu

Autora: Rhiannon Navin 

Editora: Leya (1ª Ed. 2019)

Páginas: 352

 


 Trechos do livro


Tudo ficou completamente quieto, até a gente, ninguém mexeu um músculo. Era como se nem estivéssemos mais respirando. Ficamos assim por muito tempo – quietos e em silêncio.


Ainda estava chovendo. Muita chuva, o dia todo. A chuva me lembrava de todas as lágrimas daquele dia. Era como se o céu estivesse chorando junto com a mamãe e com todo mundo que tinha chorado hoje.

 

– Saiam da minha cabeça, pensamentos ruins! – disse, e fiz de conta que tinha um cofre lá no fundo da minha cabeça igual ao que o papai tem no escritório, onde ele guarda documentos importantes para que ninguém roube, e eu empurrei os pensamentos ruins para dentro do cofre na minha cabeça. – Vou guardar tudo isso lá dentro, trancar e colocar a chave no meu bolso.

 

 E qual era a cor para quando nos sentimos solitários? Achei que era uma cor que deixa a gente invisível. Nós nos sentimos solitários porque ficamos meio que invisíveis para as outras pessoas, e não é um invisível bom, tipo super-herói, mas um invisível triste. Mas como é que eu podia fazer uma cor invisível? Tive uma ideia. Peguei minha tesoura e cortei o meio do papel e fiz uma moldura com nada no meio.

Gosto de ficar em paz no meu quarto, mas naquele momento isso não era bom. Eu estava me sentindo solitário. Solitário não é o mesmo que sozinho. Eu e a mamãe tínhamos nos dado conta disso já fazia um tempo, na hora de dormir. Eu chamei a mamãe no meu quarto e disse que estava me sentindo sozinho, mas ela disse que eu não estava sozinho porque ela estava lá embaixo, então percebi que eu estava me sentindo solitário, e não sozinho. Solitário é quando você quer estar com alguém, mas não tem ninguém com você, e essa é uma sensação ruim. Sozinho não tem que ser uma coisa ruim, porque a gente pode se sentir bem quando está sozinho. Nós dois concluímos juntos que gostávamos às vezes de ficar sozinhos. O meu quarto era aonde eu ia para ficar sozinho, mas não para me sentir solitário.

 

Eu não sabia que a gente podia ter mais de um sentimento dentro da gente ao mesmo tempo. Principalmente sentimentos que são bem diferentes um do outro. Eu sabia que podemos ficar animados e, quando fazemos o que nos deixa animados, a animação vai embora e ficamos felizes porque é divertido. Ou tristes, porque já acabou, como quando todo mundo vai embora depois da sua festa de aniversário. Agora… mais de um sentimento ao mesmo tempo, bem ao lado um do outro, ou por cima um do outro, tudo misturado dentro da gente? Eu nunca soube que isso podia acontecer.

 

Todo mundo à nossa volta estava chorando, e a tristeza parecia um cobertor bem grande e pesado em cima de nós.


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